A QUESTÃO DO DIVÓRCIO.
Mateus 19:3-10 ARA.
[3] Vieram a ele alguns fariseus e o experimentavam, perguntando: É lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo? [4] Então, respondeu ele: Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher [5] e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? [6] De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. [7] Replicaram-lhe: Por que mandou, então, Moisés dar carta de divórcio e repudiar? [8] Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio. [9] Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério e o que casar com a repudiada comete adultério. [10] Disseram-lhe os discípulos: Se essa é a condição do homem relativamente à sua mulher, não convém casar.
Comentário.
A questão levantada pelos fariseus é uma referência a Deuteronômio 24:1-4 ([1] Se um homem tomar uma mulher e se casar com ela, e se ela não for agradável aos seus olhos, por ter ele achado coisa indecente nela, e se ele lhe lavrar um termo de divórcio, e lho der na mão, e a despedir de casa; [2] e se ela, saindo da sua casa, for e se casar com outro homem; [3] e se este a aborrecer, e lhe lavrar termo de divórcio, e lho der na mão, e a despedir da sua casa ou se este último homem, que a tomou para si por mulher, vier a morrer, [4] então, seu primeiro marido, que a despediu, não poderá tornar a desposá-la para que seja sua mulher, depois que foi contaminada, pois é abominação perante o Senhor; assim, não farás pecar a terra que o Senhor, teu Deus, te dá por herança.). Mas os fariseus eram mestres do judaísmo (tradição de homens) e não da lei de Deus, eles faziam suas indagações com intuito de reprovar o que Jesus ensinava, pois comparavam a doutrina de Cristo com a das escolas dos seus rabinos. Contudo, pra nós não importa o que as escolas de Hillel ou de Shammai dizem sobre a Lei, pois: "Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos. [9] A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus. [10] Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo" [Mt.23:8-10]. Então para nós um só é o nosso mestre, Rabi, Senhor e Guia, isto é, o Cristo e um só é o nosso Pai, isto é, Deus; mas ainda hoje há aqueles que querem ser chamados de rabi, mestre, senhor, guia e pai, contudo não passam de "cegos condutores de cegos" como os fariseus e escribas [Mt.15:14], pois seguem as interpretações de homens e não as de Jesus; por isso, esses falsos mestres levarão a muitos para o inferno juntamente com eles mesmos.
Precisamos ter em mente que o debate é sobre a carta de repúdio descrita em Deuteronômio 24:1-4; então Jesus Cristo vai ensinar corretamente o que está escrito em Deuteronômio 24 à luz do que a Lei de Deus disse, antes dela ser escrita em tábuas de pedra, ou seja, "no princípio", em Gênesis 2:24 ([Mt.19:4-6] Então, respondeu ele: Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher [5] E que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? 6. De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.). Jesus recorre às bases da lei mosaica para explicar o significado do casamento e não às interpretações dos "doutores da lei mosaica" que dizem de si mesmos: "Somos sábios, e a Lei do Senhor está conosco"; mas que com a falsa pena dos escribas convertem a Lei em mentira [Jr.8:8]; pois os hipócritas tendem a argumentar contra a Palavra de Deus tentando encontrar brechas na própria Palavra de Deus, isto é, contra-argumentar a Bíblia com a própria Bíblia. Daí os fariseus já chegam capciosamente afirmando que Moisés "mandou repudiar", mas Jesus vai corrigi-los dizendo: "permitiu repudiar", pois não foi uma ordenança, mas sim uma permissão, entretanto, essa permissão tem uma regra para sua aplicação: "ter achado coisa indecente" ("Indecente" no hebraico é: "ervah"; ervah significa: nudez, vergonhas, partes pudendas com sentido implícito de exposição vergonhosa, de nudez de conduta imprópria; ou seja, Cristo vai dizer logo a seguir o que é essa coisa indecente descrita em Deuteronômio 24, ou seja, as "relações sexuais ilícitas", isto é, o sexo antes do casamento).
Outra coisa que devemos considerar é que o Evangelho de Mateus foi escrito para os judeus e não para os gentios e é por isso que essa cláusula da lei não está exposta nem em Marcos 10:13-16 e nem em Lucas 18:15-17 (Evangelhos escritos para povos gentios) como aqui em Mateus 19, pois a Lei mosaica dizia aos judeus: "Não contaminarás a tua filha, fazendo-a prostituir-se; para que a terra não se prostitua, nem se encha de maldade" [Lv.19:29]. E ainda: "Se alguém seduzir qualquer virgem que não estava desposada e se deitar com ela, pagará seu dote e a tomará por mulher. 17. Se o pai dela definitivamente recusar dar-lha, pagará ele em dinheiro conforme o dote das virgens" [Êx.22:16,17]. Outrossim: "Se um homem casar com uma mulher, e, depois de coabitar com ela, a aborrecer, [14] e lhe atribuir atos vergonhosos, e contra ela divulgar má fama, dizendo: Casei com esta mulher e me cheguei a ela, porém não a achei virgem, [15] então, o pai da moça e sua mãe tomarão as provas da virgindade da moça e as levarão aos anciãos da cidade, à porta. [16] O pai da moça dirá aos anciãos: Dei minha filha por mulher a este homem; porém ele a aborreceu; [17] e eis que lhe atribuiu atos vergonhosos, dizendo: Não achei virgem a tua filha; todavia, eis aqui as provas da virgindade de minha filha. E estenderão a roupa dela diante dos anciãos da cidade, [18] os quais tomarão o homem, e o açoitarão, [19] e o condenarão a cem siclos de prata, e o darão ao pai da moça, porquanto divulgou má fama sobre uma virgem de Israel. Ela ficará sendo sua mulher, e ele não poderá mandá-la embora durante a sua vida. [20] Porém, se isto for verdade, que se não achou na moça a virgindade, [21] então, a levarão à porta da casa de seu pai, e os homens de sua cidade a apedrejarão até que morra, pois fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai; assim, eliminarás o mal do meio de ti. [22] Se um homem for achado deitado com uma mulher que tem marido, então, ambos morrerão, o homem que se deitou com a mulher e a mulher; assim, eliminarás o mal de Israel. [23] Se houver moça virgem, desposada, e um homem a achar na cidade e se deitar com ela, [24] então, trareis ambos à porta daquela cidade e os apedrejareis até que morram; a moça, porque não gritou na cidade, e o homem, porque humilhou a mulher do seu próximo; assim, eliminarás o mal do meio de ti. [25] Porém, se algum homem no campo achar moça desposada, e a forçar, e se deitar com ela, então, morrerá só o homem que se deitou com ela; [26] à moça não farás nada; ela não tem culpa de morte, porque, como o homem que se levanta contra o seu próximo e lhe tira a vida, assim também é este caso. [27] Pois a achou no campo; a moça desposada gritou, e não houve quem a livrasse. [28] Se um homem achar moça virgem, que não está desposada, e a pegar, e se deitar com ela, e forem apanhados, [29] então, o homem que se deitou com ela dará ao pai da moça cinquenta siclos de prata; e, uma vez que a humilhou, lhe será por mulher; não poderá mandá-la embora durante a sua vida" [Dt.22:13-29].
Pelo que a lei mosaica diz, haveria punição de morte por causa de relações sexuais ilícitas, mas dependendo da situação não; portanto poderia haver em Israel uma mulher que foi deflorada antes do casamento e não foi morta, como está escrito nos versos do 25 ao 27 de Deuteronômio 22, pois ela não foi culpada pelo que ocorreu; então a partir dessas passagens bíblicas podemos entender porque era permitido a um homem lavrar um termo de divórcio e despedir de sua casa a uma mulher que tomou para se casar, depois de ter achado "coisa indecente" nela; pois sem saber, ele desposou uma mulher que não era mais virgem. E é exatamente isto que Jesus expôs aos fariseus que vinham com ideias corrompidas pelas escolas de Shammai e de Hillel e com suas interpretações distorcidas da Lei; foi por isso que Jesus lhes disse: "Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio. [9] Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério e o que casar com a repudiada comete adultério" [Mt.19:8,9].
Como a Bíblia por si mesmo se interpreta, temos a passagem bíblica de José que, ao saber da gravidez de Maria, intentou deixá-la secretamente, pois não queria expô-la ao escândalo (Mt1:18,19. [18] Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: estando Maria, sua mãe, desposada com José, sem que tivessem antes coabitado, achou-se grávida pelo Espírito Santo. [19] Mas José, seu esposo, sendo justo e não a querendo infamar, resolveu deixá-la secretamente.). Nesse texto do Evangelho de Mateus vemos que José nem tocou em Maria; por isso e sendo um homem justo, isto é, cumpridor da lei mosaica, ele estava disposto a dar carta de repúdio à sua esposa; portanto eu afirmo que este é o contexto da permissão para o divórcio e novas núpcias, pois é o que o texto de Deuteronômio descreve ao dizer que: "E se ela, saindo da sua casa, for e se casar com outro homem; e se este a aborrecer, e lhe lavrar termo de divórcio, e lho der na mão, e a despedir da sua casa ou se este último homem, que a tomou para si por mulher, vier a morrer, então, seu primeiro marido, que a despediu, não poderá tornar a desposá-la para que seja sua mulher, depois que foi contaminada, pois é abominação perante o SENHOR; assim, não farás pecar a terra que o SENHOR, teu Deus, te dá por herança" [Dt 24:2-4]. Ou seja, Deuteronômio 24:2-4 vai destacar que aquela mulher, que já não era virgem e que por isso foi repudiada por seu primeiro marido, mas sem conhecê-lo sexualmente, lhe foi permitido pela lei se casar com outro homem, mas este segundo marido consumou o casamento, pois teve relações sexuais com ela, porque o texto diz que "ela foi contaminada com seu semem"; daí, mesmo que ele tenha se arrependido porque ela não era mais virgem e lhe tenha dado o divórcio, ou mesmo que ele venha a morrer, ela não poderia voltar ao seu primeiro marido. A lei de Moisés era implacável contra o adultério, contra a fornicação, contra a confusão sexual e contra o estupro, o homem que desonrasse uma virgem teria que casar com ela e permanecer casado até a morte, quem estuprasse uma mulher seria morto, quem se prostituisse seria morto e quem adulterasse seria morto também; Jesus Cristo nunca deu nenhuma permissão para o divórcio e o recasamento, essa doutrina que permite o divórcio e novas núpcias em caso de adultério não veio da Palavra de Deus, mas da boca de falsos profetas que interpretam as Escrituras com suas corruptas mentes carnais; e como já disse: "a Bíblia interpreta a Bíblia"; e assim o apóstolo Paulo não inventou história, mas conduziu os cristãos os ensinamentos de Cristo, quando escreveu: "Ora, aos casados, ordeno, NÃO EU, MAS O SENHOR, que a mulher não se separe do marido [11] (se, porém, ela vier a separar-se, que não se case ou que se reconcilie com seu marido); e que o marido não se aparte de sua mulher" [1Cor.7:10,11]. E aos cristãos de Roma, Paulo usou o vínculo matrimonial como figura do domínio da Lei sobre a humanidade ("Ora, a mulher casada está ligada pela lei ao marido, enquanto ele vive; mas, se o mesmo morrer, desobrigada ficará da lei conjugal" [Rm.7:2]); e completa a doutrina apostólica sobre a união conjugal em 1Coríntios 7:39 ("A mulher está ligada enquanto vive o marido; contudo, se falecer o marido, fica livre para casar com quem quiser, mas somente no Senhor"). Portanto a Bíblia não permite o divórcio e novas núpcias, mas ordena a prática do perdão, pois se alguém pecou fazendo o que era mau aos nossos olhos, devemos perdoar como Deus nos perdoou; e como disse o apóstolo Paulo: "se, porém, vier a separar-se, que não se case"; pois o vínculo matrimonial permanece até que a morte os separe.
Ev. Levi.
Nenhum comentário:
Postar um comentário